terça-feira, 1 de outubro de 2013

Carta escrita por um Professor de história da rede estadual e da rede municipal:


OBRIGADO BLACK BLOCS! 

"O clímax do dia de hoje (30/09/2013) ocorreu pouco depois das 18 horas, quando nossa categoria reconheceu, agradeceu e deu voz aos meninos e meninas do Black Bloc RJ. Foi muito importante, principalmente vindo de uma categoria que não há muito tempo os defenestrava, mas cuja solidariedade prestada no último sábado, diante da covardia cometida pela mesma força repressiva que também os reprime, transformou em carinho, compreensão e adesão. Por trás daqueles tecidos negros que cobrem seus rostos, vejo meus alunos e a revolta e inconformismo em potencial que existe em cada um deles.

Quando olho aqueles rostos jovens na rua, lutando para fazer um "novo mundo" através do "poder popular", fico otimista em relação ao futuro. Destemidos e corajosos às raias da inconsequência e da loucura (e não será na razão dos loucos que encontraremos as alternativas?) que é enfrentar homens armados e treinados para matar quem questiona a ordem, confrontam também o dogma que perpetua a desigualdade social: o direito à propriedade.

Já escrevi aqui uma vez que educar é transformar um ser humano para a vida em sociedade. Logo, o professor que não concebe a transformação para si e para a realidade em que se encontra dificilmente se concretizará num bom educador. Gostaria muito de, num futuro não tão distante, encontrar na sala dos professores um destes meninos e meninas que colocam a integridade física em risco para manter o povo na rua, que não deixam dominar-se pelos mecanismos de interiorização de valores e pelas expectativas do sistema capitalista. Levando a pedagogia da ação para a sala de aula, provavelmente não se conformarão com um modelo de escola que castra, aprisiona e reproduz.

Os Black Blocs nos ensinam que sem risco e ação não há transformação. Quando os vi entoando que nós, professores, somos seus amigos e que eles se indignam ao mexer conosco, vejo que o que mais querem é aprender, mas que às salas de aulas que lhes são oferecidas não são o bastante. Deveríamos aprender o mesmo, e compreender que "a educação do Rio de Janeiro não parou", só transformou as ruas num imenso espaço de aprendizado, sem hierarquias ou avaliações, onde aprendemos lado a lado e conquistamos à custa de muito esforço e luta nossa emancipação. "

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